Há um grande paradoxo no sistema financeiro nacional. O Bradesco teve um lucro ano passado de R$ 5,5 bilhões, o Itaú de R$ 5,3 bilhões e o Banco do Brasil de R$ 4,2 bilhões. Foram recordes históricos. A Caixa Econômica Federal, por sua vez, lucrou 46% a mais do que no ano anterior, também um salto recorde. Os dez maiores bancos somaram R$ 85 bilhões em depósitos e R$ 83 bilhões em créditos concedidos – mais dois recordes. Sob qualquer prisma que se examine os balanços, descobre-se que os bancos nunca estiveram tão bem em nossa história. Mas há uma exceção nesse festival de engorda do sistema financeiro, uma única exceção, o Banco Central do Brasil. Fechado o balanço anual, descobriu-se que o BC teve prejuízo de R$ 10,5 bilhões em 2005. O paradoxo é que o prejuízo do BC foi provocado por sua própria política de manter os juros mais altos do planeta. O banco tem R$ 140 bilhões de ativos em moedas estrangeiras. Por causa dos juros, o real está cada vez mais apreciado. No primeiro semestre de 2005, por exemplo, o real teve uma valorização de 11,5% em relação ao dólar e de 21,3% na comparação com o euro. A conseqüência é que os ativos em moedas estrangeiras do BC perderam valor. “O erro do BC foi comprar dólar caro e vender barato”, avalia o professor Paulo Rabello de Castro, da PUC-Rio.
Se o prejuízo fosse apenas contábil, já seria ruim. Mas como manda a lei, o Tesouro Nacional cobriu o buraco. Corrigido o valor, o Tesouro transferiu R$ 12,95 bilhões do contribuinte para o BC. “É dinheiro que poderia estar indo para investimentos públicos sendo enviado para o ralo”, lembra o economista Júlio Gomes de Almeida, diretor-executivo do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial, IEDI. “Será que está valendo à pena prosseguir com essa política monetária?” A rigor, o BC não tem por função institucional dar lucro, e sim regular o mercado. Mas como qualquer pessoa jurídica, precisa fechar seu balanço. Geralmente fecha a conta com pequenos lucros ou pequenos prejuízos. Mas os dois últimos anos da gestão de Henrique Meirelles foram atípicos. Em 2004, por exemplo, obteve um lucro recorde de R$ 2,5 bilhões. Já em 2005 despencou para sua pior performance.
Desde 2004 o banco vem aproveitando o dólar barato e farto no mercado internacional para aumentar as reservas cambiais. O problema é que o real caiu demais. Só no primeiro semestre, o prejuízo foi de R$ 11,6 bilhões por conta do câmbio. Para o professor José César Castanhar, da FGV-Rio, esse rombo não seria indicador tão importante. Afinal, com isso, houve folga para quitar toda a dívida com o FMI, zerar a dívida interna indexada ao dólar e reduzir o risco Brasil. “Mas é claro que se o Banco Central fosse mais ousado e derrubasse os juros da forma como tem aconselhado toda a galáxia, o prejuízo seria bem menor”, diz Castanhar. “Foi um ônus desnecessário”.
Fonte: Revista Istoé Dinheiro.

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